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Ladrão de cactos.

Instintivamente estou me distanciando das pessoas. Tornei-me apático a tudo. Não que eu queira, é mais uma questão de necessidade. Vivemos num mundo onde a boa vontade alimenta o oportunismo ou, é o próprio. Lobo na pele de cordeiro. Tornei-me “arisco” e sempre acho que uma boa ação está coberta de terceiras intenções. Faço a minha parte, mas não sei até quando. Poucas pessoas andam com crédito na praça. Sempre confio desconfiando. Apesar do meu ceticismo, acabo ajudando, porque sou legal e bonzinho lá no fundo, mas nem sempre vale a pena. Como aconteceu outro dia, quando um homem aparentando seus trinta e poucos anos apareceu perto do meio dia, pedindo pra limpar os matinhos da frente do escritório onde trabalho, pra poder comprar comida. Chorou suas pitangas, contou sua história. Disse que acabara de chegar do interior e não tinha emprego, tinha que comprar, além da comida, fraudas para o filho recém-nascido, etc. Então estava procurando esses serviços, pois era melhor do que “mexer nas coisas dos outros”, ele disse. Aceitamos e, após terminar o serviço e receber pelo mesmo, nos ofereceu alguns vasinhos com pequenos cactos plantados, que ele mesmo plantava e pintava - eram vasos pintados de forma artesanal -, segundo ele. Ninguém quis comprar e ele foi embora, com sua enxada, mochila nas costas e seus vasinhos de cactos. “Fizemos uma boa ação, apesar de não comprarmos os vasinhos desse homem”, eu pensei. Algumas horas depois, uma moça bate no escritório, perguntando se não tínhamos visto alguma movimentação estranha no horário de almoço, pois tinham entrado no quintal da mãe dela - que fica atrás do escritório onde trabalho -, uma senhorinha de 80 anos, que estava só no momento do roubo e, com medo, apenas SE TRANCOU NA PRÓPRIA CASA, enquanto um homem roubava roupas do varal, sandálias que estavam do lado de fora da casa e alguns vasinhos de cactos. “Até as plantinhas da minha mãe esse safado levou!”, disse a mulher. Fiquei sem reação, perplexo com a cara de pau e o mau-caráter do sujeito! Bancando o bom moço humilde e se aproveitando de velhinhas indefesas. Filho da puta! Ta foda até pra confiar na própria sombra desse jeito. Nem é demasia da minha parte falar o quanto o mundo está um nojo, porque a maioria das pessoas é assim. É triste. Eu ainda acordo com a esperança de que o mundo estará melhor a cada manhã, porque sou um tolo, mas a realidade é dura e as pessoas estão cada vez mais frias. Rezemos para que Deus nos proteja de todo mal disfarçado de bem.

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